Quando caminhamos pelo centro de uma cidade ou visitamos um shopping, a presença de grandes marcas de franquias parece algo natural. No Brasil, o setor movimenta bilhões de reais e molda o comércio de norte a sul. Mas você já se perguntou por que alguns municípios parecem verdadeiros ímãs para redes de franchising, enquanto outros vizinhos, com o mesmo tamanho e renda parecidos, ficam para trás? Decifrar esse enigma não apenas rendeu respostas inéditas para o mercado nacional, mas também levou a pesquisa da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEARP/USP) a um importante reconhecimento do setor.
O trabalho desenvolvido pelo professor Eugênio José Silva Bitti, do Departamento de Contabilidade da FEARP, conquistou o primeiro lugar na categoria Educação do prestigiado Prêmio ABF Destaque Franchising 2026. A entrega dos troféus ocorreu em São Paulo, no dia 8 de maio, celebrando a originalidade de uma pesquisa que se propôs a olhar para o setor além das fórmulas rígidas de marketing. Em vez de focar apenas em renda e tamanho populacional, o estudo utilizou o conceito de "Ecossistema Empreendedor" para entender como a infraestrutura, o acesso a crédito, a capacidade de inovação e a qualidade da governança das cidades influenciam a atração de novas lojas.
Para construir esse mapeamento de forma precisa, a pesquisa analisou os dados de 239 redes de franquias associadas à ABF durante um período repleto de desafios econômicos: os anos de 2016, 2019 e 2022. Ao conectar essas informações ao ISDEL — índice do Sebrae que avalia mais de 100 variáveis locais —, os pesquisadores chegaram a um achado surpreendente. Cidades com forte potencial de consumo, turismo e economia criativa naturalmente atraem mais franquias. Porém, os municípios com maior "capital empreendedor" tradicional, como formação educacional voltada a negócios independentes, apresentaram uma relação negativa com a concentração de franquias. Isso sugere que o modelo de franquia floresce justamente como uma alternativa estruturada e mais segura onde o empreendedorismo autônomo e de risco é menos vigoroso.
Na prática, as descobertas funcionam como uma bússola de duas vias. Do ponto de vista de mercado, ajudam os gestores de grandes marcas a escolherem seus pontos de expansão de forma mais assertiva. Do lado social, mostram aos gestores públicos quais atributos locais eles precisam desenvolver se quiserem tornar suas cidades atraentes para esse tipo de investimento privado. Para a FEARP, a conquista reforça a excelência da produção científica aplicada, estreitando as pontes entre a universidade, as políticas públicas e o mercado.
Questionado sobre a continuidade da pesquisa, o autor explica que já planeja o aprofundamento dessa linha de investigação para entender como diferentes formatos de negócios — e não apenas as startups tecnológicas — respondem ao ambiente local para impulsionar o desenvolvimento regional.
Para o professor Eugênio Bitti, o prêmio concedido pela maior entidade do setor no país foi uma satisfação imensa e um combustível para a continuidade das pesquisas. “Pesquisa acadêmica sobre franchising ainda é relativamente escassa no Brasil, especialmente quando se busca ir além das perspectivas mais tradicionais. Saber que o trabalho foi valorizado por quem atua diretamente no setor — e não apenas pela comunidade acadêmica — reforça que estamos fazendo as perguntas certas. É uma motivação enorme para continuar”, celebra o docente.
Por: Lincoln Leandro Fonseca, Assessoria de Comunicação da FEARP